Coluna artes e letras


LISBOA - CASA DOS BICOS - SEDE DA FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO. 

AS CINZAS DE JOSÉ SARAMAGO FORAM DEPOSITADAS NO CAMPO DAS CEBOLAS, SOB UMA OLIVEIRA VINDA DA AZINHAGA.  "Já não existe a casa em que nasci...Pelo poder reconstrutor da memória posso plantar a oliveira que dava sombra à entrada..."- J.Saramago, As pequenas memórias

JUNTO DA OLIVEIRA HÁ UM BANCO DE JARDIM para que as pessoas se possam ali sentar, recordar o escritor ou ler as suas obras.


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CASA DAS HISTÓRIAS  PAULA REGO 

A casa/edifício: Arq. Eduardo Souto Moura (Porto, 25 de Julho de 1952)
Em 2010 recebeu, pela terceira vez,  o prémio SECIL de arquitetura e, em 2011,  o prémio PRITZKER. O espaço acolhe mais de duas centenas de obras de
PAULA REGO
(Lisboa, 26 de Janeiro de 1935. Reside e trabalha em Londres).
As imagens  foram captadas durante o percurso de uma visita às exposições Innervisions de Paula Rego; Innervisions (Céus sombrios) de Pedro Calapez (Lisboa, 1953) e A Dama pé - de - cabra de Paula Rego e Adriana Molder (Lisboa,1975. Vive e trabalha em Berlim). 
(Obs.: Entrada livre; apenas é permitido fotografar o edifício).














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PARQUE DE ESCULTURA CONTEMPORÂNEA ALMOUROL
Vila Nova da Barquinha
O parque, junto do rio Tejo, reúne 11 esculturas de artistas portugueses. Foi inaugurado no dia 6 de Julho de 2012.Visitámos e registámos fotograficamente o espaço e as esculturas.


CRISTINA ATAÍDE
Viseu ,1951
Vive e trabalha em Lisboa
ROTTER, 2010-12
(Merujona)Tubo metálico pintado 300CMX700CM 









XANA
Lisboa, 1959
Vive e trabalha em Lagos
CASA NO CÉU
Caixas plásticas industriais
657CMX900CMX540CM










ZULMIRO DE CARVALHO
Vai Bom, 1940
Vive e trabalha no Porto
LINHA DA TERRA E DO RIO
Aço inox polido e escovado
425CMX900CM






     



JOSÉ PEDRO CROFT
Porto, 1957
Vive e trabalha em Lisboa
S/ TÍTULO
Ferro e aço polido
6000CMX100CM (X4)









RUI CHAFES
Lisboa, 1966
Vive e trabalha em cascais
CONTRAMUNDO
Ferro metalizado pintado de negro mate
250CMX150CMX310CM







CARLOS NOGUEIRA
Moçambique,1947
Vive e trabalha em Oeiras
CASA QUADRADA COM ÁRVORE DENTRO, 2012
Betão branco
Quadrado de 300CM








PEDRO CABRITA REIS
Lisboa, 1956

Vive e trabalha em Lisboa
CASTELO 2012
Granito amarelo
300CMX180CMX180CM








FERNANDA FRAGATEIRO
Montijo, 1962
Vive e trabalha em Lisboa
CONCRETE POEM, 2012
Vigas em betão branco - Peças em aço inox dispostas no espaço de 120CMX1000CMX1500








JOANA VASCONCELOS
Paris,1971
Vive e trabalha em Lisboa
TRIANONS, 2012
Estruturas metálicas com fitas plásticas
324CMX324CMX324CM (X2)









ÂNGELA FERREIRA
Moçambique, 1958
Vive e trabalha em Lisboa
REGA 2012
Pivot de rega em tubo metálico
1200CMX200CMX250CM
Círculo descrito com diâmetro de 2500CM







ALBERTO CARNEIRO
Coronado, 1937
Vive e trabalha em Lisboa
SOBRE A FLORESTA, 2012
33 elementos verticais em granito e bronze
33 pedras graníticas com palavras gravadas
Altura dos elementos verticais 350CM
Diâmetro de inclusão das peças aprox.600CM


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                                                           Poema de  Herberto Helder    
                               Lugar   II 

Há sempre uma noite terrível para quem se despede
do esquecimento. Para quem sai,
ainda louco de sono, do meio do silêncio. Uma noite
ingénua para quem canta.
Deslocada e abandonada noite onde o fogo se instalou
que varre as pedras da cabeça.
Que mexe na língua a cinza desprendida.

E alguém me pede: canta.
Alguém diz, tocando-me com seu livre delírio:
canta até te mudares em cão azul,
ou estrela electrocutada, ou em homem
nocturno. Eu penso
também que cantaria para além das portas até
raízes de chuva onde peixes
                                                           cor de vinho se alimentam
de raios, seixos límpidos.
Até à manhã orçando
pedúnculos e gotas ou teias que balançam
contra o hálito.
Até à noite que retumba sobre as pedreiras.
Canta - dizem em mim - até ficares
como um dia órfão contornado
por todos os estremecimentos.
E eu cantarei transformando-me em campo
de cinza transtornada.
Em dedicatória sangrenta.

Há em cada instante uma noite sacrificada
ao pavor e à alegria.
Embatente com suas morosas trevas.
Desde o princípio, uma onde que se abre
no corpo, degraus e degraus de uma onda.
E alaga as mãos que brilham e brilham.

                                                          Digo que amaria o interior da minha canção,
seus tubos de som quente e soturno.
Há uma roda de dedos no ar.
A língua flamejante.
Noite, uma inextinguível
inexprimível
noite. Uma noite máxima pelo pensamento.
Pela voz entre as águas tão verdes do sono.
Antiguidade que se transfigura, ladeada
por gestos ocupados no lume.

Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.
E eles querem dizer: tu darás a tua existência
ardida, a pura mortalidade.
Às mulheres amadas darei as pedras voantes,
uma a uma, os para-raios abertíssimos da voz.
As raízes afogadas do nascimento. Darei o sono
onde um copo fala 
fusiforme
batido pelos dedos. Pedem tudo aquilo em que respiro.
Dá-nos tua ardente e sombria transformação.
E eu darei cada uma das minhas semanas transparentes,
lentamente uma sobre a outra.
Quando se esclarecem as portas que rodam
para o lugar da noite tremendamente
clara. Noite de uma voz
humana. De uma acumulação
atrasada e sufocante.
Há sempre sempre uma ilusão abismada
numa noite, numa vida. Uma ilusão sobre o sono debaixo
do cruzamento do fogo.
Prodígio para as vozes de uma vida repentina.

se aquele que ama dorme, as mulheres que ele ama
sentam-se e dizem:
ama-nos. E ele ama-as.
Desaperta uma veia, começa a delirar, vê
dentro de água os grandes pássaros e o céu habitado
pela vida quimérica das pedras.
Vê que os jasmins gritam nos galhos das chamas.
Ele arranca os dedos armados pelo fogo
e oferece-os à noite fabulosa.
Ilumina de tantos dedos
a cândida variedade das mulheres amadas.
E se ele acorda, então dizem-lhe
que durma e sonhe.
E ele morre e passa de um dia para outro.
Inspira os dias, leva os dias
para o meio da eternidade, e Deus ajuda
a amarga beleza desses dias.
Até que Deus é destruído pelo extremo exercício
da beleza.

Porque não haverá paz para aquele que ama.
Seu ofício é incendiar povoações, roubar
e matar,
e alegrar o mundo, e aterrorizar,
e queimar os lugares reticentes deste mundo.
Deve apagar todas as luzes da terra e, no meio
da noite aparecente,
votar a vida à interna fonte dos povos.
Deve instaurar o corpo e subi-lo,
lanço a lanço,
cantando leve e profundo.
Com as feridas.
Com todas as flores hipnotizadas.
Deve ser aéreo e implacável.
Sobre o sono envolvida pelas gotas
abaladas, no meio de espinhos, arrastando as primitivas
pedras. Sobre o interior
 
da respiração com sua massa
de apagadas estrelas. Noite alargada
e terrível terrível noite para uma voz
se libertar. Para uma voz dura,
uma voz somente. Uma vida expansiva e refluída.

Se pedem: canta, ele deve transformar-se no som.
E se as mulheres colocam os dedos sobre
a sua boca e dizem que seja como um violino penetrante,
ele não deve ser como o maior violino.
Ele será o único único violino
Porque nele começará a música dos violinos gerais
e acabará a inovação cantada.
Porque aquele que ama nasce e morre.
Vive nele o fim espalhado da terra.

 Herberto Helder
   Lugar (poema II)
(Poema que me foi enviado na sequência do comentário divulgado na  coluna 
                                                           "Retratos vazios". Fotografias: ECLIPSE - Imagens captadas por FPP)

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Estórias sobreviventes

A Branca de Neve envenenada?
A tela não entremostra nenhuma maçã e ninguém se envenena com maçãs virtuais.
- Não. A maçã não se vê, está na garganta.

A resposta de Paula Rego é mais clara, tranquila, simples e objetiva do que o quadro que me segurou o olhar. A tela lia-me em voz alta uma estória coreografada de sofrimento, força, intranquilidade e dramatismo: a manta manchada de vermelho, o sofá negro, o laço no cabelo, a mão direita na garganta e a violência da mão esquerda cravada na irónica preocupação em preservar a timidez. Havia uma estória escrita por Paula Rego que se prolongava para fora das tintas e da moldura cercante dos movimentos da Branca de Neve, mas… o que me fixava não era suficiente para sentir uma entrada plena na leitura pictórica. Faltavam-me as emoções estéticas daquela escrita que não entendia. Faltava-me ler o estranho e sentir a devassa interior da tela.
“A minha vida é como uma estória interior”. (o meu trabalho) …tem por base a minha vida, os meus sonhos e emoções” (Ana Gabriela Macedo, Paula Rego e o poder da visão, Cotovia, 2011).
Não sei se Branca de neve morreu com a maçã envenenada trincada na garganta. Sabemos que engoliu a maça envenenada, mas que continua viva e dramática dentro e fora da tela, a construir casas de estórias.

Regressei com “A Branca de Neve” na memória, a estranha beleza da “Mulher cão”, do ”Anjo” e das “Avestruzes” dançarinas.

Caminhei pela feira e pela festa, cruzei-me com a cadeira de tortura e com o homem carrasco. Fotografei bonecos e homens carrascos. Na tela da memória começaram a viajar, à deriva, outras estórias más e belas, projetadas nos traços, acrílicos, óleos… que desenham, com gestos simples, ausências e angústias: estórias de vida e de sonhos, teimosos sobreviventes.
Filhos de um país mendigo de indulgências, todos temos um pouco de bonecos articulados e de carrascos; de Branca de Neve com a maçã assoreada na garganta; de anjos e de avestruzes bailarinas. Dormitamos numa casa de estórias, onde já ninguém pode fingir ser louco. Passamos demasiado tempo a urdir papéis e figuras articuladas, só entendíveis para além dos jogos de cordel, das cores e das palavras.
Com as maçãs envenenadas que nos vão oferecendo, somos quase-estórias de bonecos sobreviventes fora da “Casa das estórias”.

Sequência fotográfica: Paula Rego, Branca de neve engole a maçã envenenada - 730X820 (1995), fonte: Internet; FP - Bonecos articulados; FP - O guarda da tortura (Feira Quinhentista - o dote da princesa - TN,2012)
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EXPOSIÇÃO DE PINTURA   de Graça Martins e Alexandra Sirgado Rodrigues - Hotel dos Cavaleiros - Bar Estúdio Alfa - Torres Novas 


GRAÇA MARTINS


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ALEXANDRA SIRGADO RODRIGUES

       

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JOSÉ SARAMAGO 
PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA 1998    -    Azinhaga 1922-11-16     -    Lanzarote 2010-06-18   
Fotografias de FPP. Interdita a sua utilização sem indicação do autor    
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                                ANTÓNIO LOBO ANTUNES 
                                                        Lisboa, 1942-09-01 - Licenciado em Medicina Psiquiátrica. Escritor.  

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  MIA COUTO (Pseud. De António Emílio Leite Couto) nasceu na Beira, Moçambique, em 5 de Julho de 1955. Jornalista, professor, biólogo, escritor.
                                      Fotografias de FPP. Interdita a sua utilização sem indicação do autor                  

                                        

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EDUARDO BENTO PUBLICA NOVO LIVRO

O olhar que procura um barco        

 Haverá um barco navegando pelos mares de Ulisses, pelos jardins de Penélope, pelos braços de Helena…
E Sísifo, Sileno, Cardílio


... talvez com o olhar de todos possamos encontrar o barco
Que nos leve em direção a Ítaca.


«Virá um barco rompendo pela tarde. Transporta no seu bojo longínquos cânticos de sereias, no convés marinheiros lobrigam a distância e trazem nos olhos a luta contra as tempestades e o olvido».






Fotografias da apresentação d "O olhar que procura um barco "
                                     de  EDUARDO BENTO