Coluna fotográfica

ESTÁTUAS VIVAS EM TOMAR



VIAGEM À IDADE MÉDIA foi o tema que interligou as "figuras - estátuas" da história de Portugal.





O festival decorreu de 14 a 16 de Setembro e contou com a presença de António Santos - staticman - que bateu o recorde mundial de suspensão com um só ponto de apoio visível. Permaneceu na entrada principal do edifício da Câmara Municipal de Tomar, durante 5 h. 6 m. 6 s. Ainda que parcialmente, as fotografias documentam este festival.









































































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CLUBE DE LEITURA

BIBLIOTECA MUNICIPAL GUSTAVO PINTO LOPES



ENCONTRO DE LEITORES NA VILA CARDÍLIO

As leituras centralizaram-se na última publicação de Eduardo Bento - O olhar que procura um barco, particularmente no capítulo Felix Turre. 


 A realização de uma sessão do clube de leitura da BMGPL, fora do espaço/biblioteca, foi uma louvável iniciativa da Equipa da Biblioteca Municipal de TN, coordenada pelo  Dr. Luís Filipe Dias.  Decorreu sob a aprazível copa das oliveiras de Cardílio. O encontro - pautado por uma  boa organização - foi oportunidade  de revisitar a Villa, ler e conviver. 
A sequência fotográfica, efectuada no local, intenta fixar no tempo esse encontro, transcreve as primeiras linhas de cada capítulo d, Olhar que procura um barco e finaliza-se na Felix Turre - objecto de leitura integral - a que todos deram voz.



Felix Turre, o último capítulo do livro, é uma espécie de hino pagão à sua amada Turris: Turris é a cidade, a minha pátria, figuração da urbe distante, onde sou e me reconhecem como cidadão.(...) Aqui fui feliz, eis o segredo que um dominus tipicamente romano entende partilhar com a sua domina Avita; mas também é um conselho e um memento ao viajante que por ali passa: carpe diem. (Abel N. Pena, O barco a vela e o mastro, in, prefácio O olhar que procura um barco).



Deambulo pelas arcadas do palácio e oiço o som das vozes dos arrogantes pretendentes. Eles bebem o vinho de Ulisses, jogam e zaragateiam. Como poderei tecer os dias retirada no silêncio da grande sala, dilatando a espera? Mas, esperando, não há cansaço na espera. ( O olhar que procura um barco)




Como foi possível chegarmos a esta degenerescência? Até a veneração dos deuses familiares está proibida.Secretamente continuo a venenerar os deuses lares, com receio de ser denunciado por alguém da minha casa. (Felix Turre)

Este é um tempo de decadência. (...) É preciso libertar a cidade deste moscardo tagarela, cuja língua se transformou em ferrão, que não hesita poisar em tudo o que temos de mais sagrado com as suas asas de impiedade. (...) defende a igualdade entre homens e mulheres na música, na ginástica, nas actividades de guerra. Por Zeus! (...) este velho inoportuno estuda os astros e nega-lhes natureza divina... Até quando suportaremos o latir escarninho do sofista que passa os dias em cavaqueira com todos os que dele se acercam nas escadarias da ágora?(Todos os navios naufragaram)




Amigos, ó meus irmãos de sempre!, aonde iremos se todos os navios naufragaram e todos os caminhos da alegria nos estão vedados? Aonde iremos? (...) (Todos os navios naufragaram)



                                            

                                             
 Agora aqui estou, sentado, simplesmente olhando. Olho para trás para o percurso da minha vida, que já vai longa, enquanto a noite vai envolvendo tudo ... Fico sentado horas e horas, placidamente, entre colunas junto ao átrio. Cada vez mais só, olho estas árvores, o odoroso jardim (...).

Não seria possível encontrar abrigo numa floresta de sonhos onde tudo fosse esquecimento? Ou lavar a água das nascentes conspurcadas pela nossa sede?

É tarde. Na noite, a voz das sentinelas dói. (Fogo que se esfria)



Lembro-me... Houve um tempo em que todas as manhãs os rebanhos saíam para os prados e os boieiros conduziam as juntas de bois para a faina. Aqui havia uma oliveira. Lembro-me...

Árvore sagrada, doada aos homens pelos deuses, a oliveira, com o seu óleo, torna a noite mais acolhedora e terna. É ela que alimenta a lucerna, dá luz à noite escura, afasta os fantasmas nefastos que vagueiam em perdição. (Felix Turre)





Aqui havia uma oliveira.
Junto ao seu tronco muitas vezes esperei o entardecer, olhando o vale do Monda, cujo percurso é marcado por uma linha sinuosa de choupos esguios a perder-se ao longe. (Felix Turre)






Aqui havia uma oliveira. Resistiu aos séculos, mas não sobreviveu ao fogo que a consumiu. (Felix Turre)





O fogo: senhor da vida, doador da morte. Elemento em que todas as contradições se resolvem. Companheiro de longas noites de inverno quando a lareira congrega para a serena conversa entre amigos e o vinho produzido nestas encostas anima o serão. (Felix Turre)



...lembro-me. (Felix Turre)



Os últimos bandos de pássaros acolheram-se nas sombras do bosque onde o carvalho cruza os ramos com o castanheiro e a hera se entrelaça pelos troncos. Aí está a noite. Apagam-se os rumores. (Felix Turre)




De Esparta guardo a memória dos dias, os dias da mais luminosa juventude, guardo o silvo do vento no desabrigado planalto, recordo o brilho sereno do palácio de Menelau. No jardim era longa a álea onde se perfilavam as estátuas de heróis e deuses, e pairava o perfume das flores... (O fogo que se esfria).






Quem é este animal a quem chamamos homem? Este vertical bambu, contemplando estrelas e às vezes curvado, demasiado curvado, para o pó da terra? Ele sobe até ao Olimpo, capaz de desafiar os deuses e arrasta-se até ao mais fundo do medonho Tártaro. (As mãos resistem)






Entanto, breve avena, sorve o perfume ofertado pelos novos prados da primavera. deslumbra-te com as coisas que agora te são dadas. (...) Escuta: do interior de ti vem uma voz que te diz: " torna-te no que deves ser e não cedas às circunstâncias". Tu sabes que toda a boda chega sempre ao fim. (As mãos resistem)



Inquieto viajante, porque suspendes o teu gesto ao olhar o espelho e segues o sulco de mais uma ruga no teu rosto? Saberás que o rio do tempo não tem margens, nem foz e arrasta tudo para o fundo?
Sei que a vida é apenas a demora de um momento, uma breve passagem. (Sileno diz-te)



Sei que um lago espera por mim.
Um lago que reflecte o céu e onde germinará o silêncio e a morte. É nele que me procuro, nele me conheço pela primeira vez e, pela primeira vez, estou face a face, com beleza. (...) preso à minha imagem reflectida no lago, como o crepúsculo me acalenta neste enlevo de mim. O outro sou eu. (A paixão fria)



Era ao entardecer quando o outono levemente se agitava nos bosques da Trácia e as folhas iam na última viagem, pelo deslizar das águas, até ao mar onde repousa o mísero rei Egeu.
A partir de hoje sei que os deuses só trazem dor e desamparo aos homens e que amor, beleza, a própria vida são uma breve demora nos árduos caminhos da terra. (Sombra de sombra)



Qual é o sentido? Se esta acção tem de ser praticada mas não tem finalidade, é o absurdo que se apodera de todos os horizontes. Agente e paciente, estou condenado pelos deuses a empurrar este rochedo, eternamente, até ao topo do monte. Mas nunca, esta acção sem fim, estará concluída. Se ao menos me fosse consentido um breve momento de repouso...ou então que um mortal cansaço me prostrasse. Mas não! (Sempre...nunca...)


Se tenho asas, porque não me hei-de elevar aos céus, experimentar a vertigem das alturas e ousar subir até onde nenhum humano ousou? Viajante, não deixes que os deuses te imponham limites, nem consintas que a esfinge te corte a estrada. Um abutre pode devorar o teu corpo, mas nada pode impedir os teus sonhos de serem sonhados. Sabias que a água só existe porque tens sede?
Sempre te foi dito: "Firma bem, sempre, os pés na terra. Não tentes elevar-te aos céus. Não procures o voo, a natureza não te deu asas".
Pois eu digo-te: a invenção vence a natureza; o engenho quebra todas as barreiras. Ousa! enfrenta o proibido. Mesmo sem asas, voa! (O voo)


Estou cansado.
Uma melancolia pesa sobre a minha alma como uma febre de morte. Depois de tudo a indiferença é a minha conquista. Hoje sei que não sou Héracles reincarnado e sei que todos os antigos heróis da Grécia estão mortos para sempre. Heróis... são breves sombras povoando o Hades. E os deuses? (Merencório Tédio)


Desce a noite. Apolo, no seu carro de fogo, dirige-se para a triste habitação dos mortos. Cresce a sombra. O fim da tarde traz uma fresca brisa e ao longe ouve-se a flauta de um pastor. É da idade, chegou o tempo das nostalgias. Hoje comovo-me a olhar para o passado. Todos partiram e deixaram-me aqui, neste lugar, agora tão diferente do que já foi.
Os dias passam breves. Tudo é fugaz, brevidade de tudo. Ah! se pudesse suster o declinar da tarde; se me fosse dado impedir o perpassar do tempo... a decadência do corpo, sempre mais velho, a custo sustendo a alma sempre mais sozinha...Amei a vida, saboreei o mundo, apesar dos desconcertos da vida e dos desenganos do mundo. (Felix Turre)


O Monda de águas  tão puras envolve a cidade, salgueiros e choupos bordejam as suas margens.Voltado para o rio temos o pequeno anfiteatro na encosta do castelo, junto das termas onde muitas vezes fui, não para participar nos banhos mas para tratar de negócios. Diga-se que os banhos da minha casa são muito superiores ao das cidade. Lamentavelmente os banhos públicos caíram em desuso e são vistos como um mau costume e sinal de corrupção do corpo e da alma.
Agora um fundo silêncio envolve a casa. É noite. (Felix Turre)


Hão-de vir outras vozes povoar estes campos; outros pés virão pisar estes caminhos; diferentes presenças, outro silêncio, habitarão a casa. (...) Quando estas árvores morrerem e já nem sequer houver casa, primeiro em ruínas e depois devorada pelo pó, coberta pelo esquecimento que tudo devora e submerge, outros homens aqui hão-de habitar, outros cânticos farão nascer as sementeiras.
A villa está rodeada de jardins e de pomares e, lá ao fundo, o rio não é diferente do rio da minha infância. Aqui decorreu a vida e os meus dias foram cheios. (...) (Felix Turre)



Estas palavras ficarão guardadas em caixa de mármore posta em lugar secreto.

Quero assim deixar um testemunho, talvez um lamentoso pranto. Direi aos vindouros que vivemos tempos insuportáveis. Quero que fique esta memória para que o esquecimento não se abata sobre um homem que por breve tempo aqui viveu e, tão brevemente, com Avita foi feliz. E talvez um dia... (Felix Turre)


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Obs.: As imagens documentam o encontro emoldurado pela copa das oliveiras. Foram captadas por FP. É permitida a sua utilização/manipulação para fins culturais ou documentais.


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JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS, Nome de Guerra

Leitura fotográfica de Nome de Guerra. Alguns dos trabalhos foram efetuados no âmbito do concurso de fotografia "retratar um livro" promovido pela F.J. Saramago. As transcrições seguem Nome de Guerra, Ed. Assírio e Alvim, 2ª ed. Lisboa, 2004
(Fotografias de FPP. Interdita a sua utilização sem indicação do autor)
                                                                                                                                                                                                                                                               Desenhos 
"...O autor destas páginas também desenha e não  sabe  expressar por palavras a extraordinária impressão que  recebe sempre que copia o perfil de qualquer pessoa. Através dos séculos, uma linha única e       incessantemente seguida acabou por tornar invisível o perfil de cada um..."

Às vezes o dia começa à noite"

"...Quem necessitar de distrair-se pode escolher entre o jogo, o bufete e a dança. (...) Há umas raparigas pagas pelo club para que a sala esteja sempre frequentada..."

Nome de Guerra

"...Eu não me chamo Judite. Mas não diga nada a ninguém. O meu nome verdadeiro é..."
A Judite não é uma mulher, é a própria realidade. A Judite não é gente, é uma pedra de toque, é um degrau, é a entrada, é a minha entrada na realidade..."

Cada qual vê Eva pela primeira vez

"...Aquela rapariga deve ter tido um grande mestre para conhecer daquela maneira a realidade.Esse mestre foi sem dúvida a própria realidade..."


Dança de (os) sentidos

"...Começou uma música para dançar e logo o primeiro par que apareceu foi a Judite e um desconhecido com muita prática daquele exercício e tão agarrado a ela como o Antunes na intimidade. O dançarino tinha muito que dizer a Judite...A história tinha mais interesse do que a dança..."

No Labirinto

"...E ele seguia como um estranho que há-de voltar a casa e dar contas do que viu. Mas, desse lá por onde desse, ele havia de encontrar a porta por onde se entra para a humanidade..."

Uma das maneiras de não ver uma coisa é pôr-lhe outra diante

"...É difícil ver para diante, sobretudo se se trata dos outros..."



Cada instante em que se está

"...quando se passa de um lugar para outro, levamos em geral o primeiro lugar connosco..."

 


Sonhava fixar-se

"...Ela sonhava fixar-se, encontrar a paz, dar uma grande bofetada em muita gente. Nem ela sabia imaginar: sabia apenas do que se passava com ela a cada instante em que estava..."

Uma mesa tão pequena para um grande assunto

  "...Sentou-se à mesa. Nem um sorriso de mulher. Sem amigos. Não conhecia ninguém..."
  

Quem não sabe ver ao longe levanta muros em redor de si

"...A realidade sendo de facto o que já existe feito, não deixa de ser por isso quase sempre um empecilho.Em vez de passagem é muro, não se pode transpor sem agilidade. E quando o facto é o resultado da nossa vontade, que a tanto se empenhou, de empecilho pode facilmente tornar.-se em muralha opaca que nos não deixe ver a nós mesmos do lado em que ficámos.
                 

Ver ao longe

"...Quem não sabe ver ao longe levanta muros em redor de si e muralhas que lhe tapem o horizonte."


             
FPP_Retrato____________________________________________________________________________________________________________________

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