segunda-feira, 19 de março de 2012

Sala das colunas

Já nem me recordo bem. Talvez tenha sido a semana passada, ou há pouco mais de trinta anos. Talvez quarenta. Não, não foi isso. Há quatrocentos e vinte e tal dias. Número estranho e sem qualquer memória que teime em fixar-se num quadro vazio. O livro que então percorria no silêncio terminava com uma paráfrase de “Assim falava Zaratustra” de F. Nietzsche: “ O ideal para mim seria olhar a vida com um sorriso nos lábios e não como os cães com a língua de fora.” A correr. Houve tempos em que isso não aconteceu. N“O Livro do Desassossego” Bernardo Soares deixa deslizar as palavras num lamento triste porque na “vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados”. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos que se conquista o internamento num manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade”. O poder.
Sei apenas que foi um tempo de ressonâncias ridículas de risos, que me levou a prosseguir na construção da “Sala das colunas”. Nesse tempo havia as ilusões absolutamente necessárias para ter sonhos. As ilusões acabaram, os sonhos ficaram mais vazios. Teimosamente permanecem. Nada mais ficou dependurado nas cercanias da memória, apenas o tempo para dormir o suficiente e aconchegar o pensamento. “Deixemos, então, dormir o tempo”, enquanto tomamos chá e saboreamos scones fofos.
“Sala das colunas” é apenas uma Ágora simples, espaçosa, onde a conversa pode seguir longa e pernoitar.
Da Ágora brotam sete ou oito colunas, uma ou duas já partidas. Peças de um jogo de tabuleiro, ali continuam elegantes e alinhadas duas a duas. Nelas serão dependurados quadros, fotografias, pinturas e palavras que falam disto e daquilo. A um canto – numa sala sem qualquer canto é estranho falar de cantos – demorada já há algum tempo, uma vassoura sai de um balde encostado ao último grito de detergentes e  panos húmidos.
Nos “retratos vazios” serão emoldurados restos de papéis e palavras elevadas transitoriamente à categoria documental. Graciosamente arrumados na base de uma das colunas, os caixilhos lascados estão cobertos de pó. Ficarão à guarda de Baubo.
 Ali, na “coluna fotográfica” permanecerão – porque é disso que se trata – imagens fotográficas, como se fossem máscaras que tendem a ludibriar a fluidez do tempo.
É nesta sala que nos iremos encontrar. É ampla, sem paredes, nem tetos. Apenas o chão e as colunas. Aqui, facilmente se pode provocar o encontro, estar em presença, olhar a vida com um sorriso e esquecer os entorpecidos mentais que vão transformando o mundo num manicómio.
Num tempo sofregamente partido, na sala se ajeitarão as palavras de tom derrisório, irreverencioso, crítico, mas pautadas pela dignidade devida ao ser humano.
Será apenas um espaço onde podem acontecer encontros do falar…sobre...Literatura, sobre…Fotografia….sobre…Teatro, sobre…
 E tudo isto porque nos apetece.