sábado, 20 de outubro de 2012

Avaliações (1)


Sobre a nudez forte da verdade,
o manto diáfano da fantasia

(Epígrafe de “A Relíquia” de Eça de Queirós)
Avaliações

I -  Preâmbulo

Ao longo da atividade laboral de qualquer cidadão, há momentos de interrogações, dúvidas, medos e desilusões. Caminhamos, trabalhamos e convivemos com e como ilustres desconhecidos. Seguimos lado a lado e conversamos sobre o que vai acontecendo, feitos suaves “Moscardos” de Luigi Pirandello que se veem ao espelho do dia-a-dia. Sentimos cada momento que vamos apagando com uma esponja embebida do instante e ficamos tranquilos. Simpáticos, desejamos - ou evitamos - que se tracem novos caminhos e novos jeitos de caminhar. Deixamos cair as coisas por esta e por aquela razão ou, pelo contrário, cegos e teimosos, prosseguimos na construção de ruínas num esforço inglório de dar aos outros a realidade que cada um julga ter. Mas, um dia, disseram-nos que tínhamos o nariz torto e, então, caímos na realidade.

 II - Boneco de nariz empinado

Nos anos recentes, a “avaliação” foi tema recorrente de conversa, de discussões sustentadas por afincada argumentação, sempre cada vez melhor e, provavelmente, inútil. Hoje, fala-se de “avaliação”, mas o tema já deixou de ser epicentro de conversa, de discussão e de enoitadas controvérsias pois, numa tarde sem álcool, as esferas do poder decidiram reparar que tinham nas mãos um boneco com olhar de espanto, de  nariz empinado, descaído para a esquerda ou para a direita. Os presidentes, diretores e demais chefes, nessa tarde cinzenta, revisitaram-se ao espelho, olharam para o seu nariz e emitiram juízo: nasceu torto e pronto. Desde então, o boneco, fonte de apaixonadas teses, tornou-se ídolo de menor importância.

III - Inquietação

Correu um tempo de implementação dos mais diversos processos de avaliação: nas empresas, câmaras, juntas de freguesia, secretarias, escolas e por aí além. Tudo o que se fazia deveria ser avaliado. Foram desenhados instrumentos de avaliação suportados por inventadas metodologias sempre defendidas como as melhores. As grelhas de registo coloridas acompanhavam o avaliado para onde quer que fosse. A observação laboral tornou-se quase exaustiva. Os programas informáticos pretendiam facilitar, mas não dispensavam as evidências enroladas nas folhas de papel. Aqui e ali subiam ao trono alguns pregoeiros que, com novas fichas grelhadas nas mãos, se mostravam finos conhecedores dos benefícios da avaliação. O valor do trabalho de cada um passou também a depender do resultado da observação dos dossiês bem gordos, dos relatores, dos observadores e das mariposas atentas à abundante responsabilidade que tinham nas mãos. A inquietação surgiu nas empresas, câmaras, juntas de freguesia, secretarias, escolas e por aí além.
(Continua)