terça-feira, 8 de maio de 2012

Estamos bem aqui

                                                                                      Estamos bem aqui

Estamos bem aqui. Somos protegidos pela calma de um limpo som suave de música clássica. Sentimos o devanear da chuva, o sabor da paisagem e o vento a espalhar aguaceiros que salpicam a lagoa de ressaltos efémeros.
- Que tempo!
Não sabemos se o desabafo é de alegria ou de tristeza ou, simplesmente, um olhar sobre este tempo indefinido.
Lá fora, o lago estende-se por entre encostas. As margens listadas de terra barrenta, quase vermelha, alicerçam os grandes declives que se prolongam de verde, hoje acinzado. Nos céus ciranda uma ave.
Uma casa encastelada eleva-se acima do casario que vai descendo receoso até à lagoa onde, estático, se revê no espelho de água.
Espalhadas pelas ruas estreitas, há paredes escangalhadas, telhados reduzidos, derrubados, cheios de buracos que algumas chapas zincadas teimam em tapar; aqui e ali, paredes recuperadas, brancas, colocam um travão macio ao longo abandono.
Ao longe, o céu velho não cintila o suficiente para nos obrigar a fechar o olhar sobre a casa lá no alto, forte, vaidosa e triste.
A janela grande, encostada à mesa, coberta de um som suave de música clássica, deixa escorrer carreiros de gotas de chuva que envidraçam ainda mais o tempo.
- Façamos aqui uma pausa no dia. Amaciou o tempo. Caminhemos pela aldeia.
Dois automóveis para duas pessoas, um espelho emoldurado de verde no cruzamento com uma casa velha e a rua principal e uma pequena capela alindada com duas grandes panelas de ferro arrumadinhas à entrada. Um pequeno largo e mais ninguém.
Na minha casa não havia panelas grandes, mas as que havia tinham o mesmo número de pés, de asas e uma só tampa partida nos rebordos. À volta da casa estendiam-se terras de milho. Havia um poço, havia sol e chuva e muitos pássaros.
À lareira, divertíamo-nos, desapressados, aproximando as brasas ou afastando as chamas das panelas para que não fervessem demasiado e deitassem fora.
- Olha ali aquela aldraba?
- Ali… seria o curral da burra. – Não, o burro não desce escadas, talvez arrecadação.
- Não é verdade: há muitos burros que apenas querem subir, com ou sem escadas, mas nem por isso deixam de ser burros.
- Mas esses burros são outros burros, de alimento farto e bom descanso.
- Não, não é nada disso… com a recuperação da aldeia, as estradas subiram e as casas desceram. Como em tudo na vida: se alguém sobe as escadas, haverá sempre alguém que as desce a passos largos.
Somos levados pelas ruas serpenteantes.
Cruzamo-nos com uma janela ainda com um resto de cortinas. A lareira da casa está sem fogueira e um púcaro, esquecido, continua dependurado na parede verde descaliçada…Quase tudo permanece, os donos é que se foram embora, quando, pela última vez, assinaram os pequenos trastes com as marcas de uma visita que foi acontecendo ao sabor dos dias… a caminho de um largo lago, sempre à espera do azul do céu.
“Da casa não partimos nunca. Apenas a
rodeamos, andamos em volta.
Não trilhamos outro caminho que não seja o do
regresso.

A memória prende-se a este chão. Ali
permanecemos ao nascer do sol
ou quando a lua acende no nosso coração
passos de outrora, apagadas recordações. Vozes.

Todos os mortos se esqueceram de dizer adeus                               


(EDUARDO BENTO, A casa já não abriga vozes, 2011)

Fui ficando para trás. Cruzei-me de novo com as panelas grandes em frente da capela pequena. Já não servem para preparar o caldo feito farnel para o dia de trabalho. Hoje são apenas floreiras cheias de areia e de memórias.
Não é preciso uma capela grande quando a população é pequena e a fé ainda mais pequena. Quem vem, não fica. Passa, vê o olhar do lago e por ali vive algum tempo, descansado,  à espera de sol que hoje se esqueceu de Zeboeira.