segunda-feira, 21 de maio de 2012

É sempre tempo de olhar a flor-de-lis


É sempre tempo de  olhar a flor-de-lis

Com o tempo, vamos mudando o lugar das coisas simples; são simples causa menor e passam-nos ao lado. Não falámos, não telefonámos, não bebemos um copo e o brinde ausentou-se. Ficámos por aqui.

A gata panda saltou de um sofá para o outro e veio alojar-se num cantinho para não ser incomodada, nem incomodar ninguém. Anichou-se e por ali ficou, sem mandar recado, sem escrever, sem digitar mensagem, sem telefonar. Afinal é analfabeta e também já não vai a tempo das novas oportunidades. Morreram antes de chegarem a velhas, como tantas outras experiências que não chegam a experienciar nada. Mas a panda gostou que acabassem; assim já não a aborrecem no nicho do seu descanso.

 Anichamo-nos num café a olhar o tempo, a biblioteca, o rio e um ou outro Carlos, António, Isabel, Maria, Joaquim a conversarem em silêncio, aos gritos consigo, a caminho do carro.
Carlos, ou outro com qualquer outro nome, está a tentar abrir um carro que não é o dele. Carrega nos botões do comando ajudado pela energia de meia dúzia de palavrões, mas a máquina não lhe obedece. A porta não se abre. A viatura estacionou noutro local e o comando não sabe asneiras, não se assusta e não destrava a porta da viatura que enganou o dono.

Já é tarde e não telefonámos.
-Tentemos agora.
- Água e café, por favor.
As palavras flutuam e deambulam em torno do castelo alindado de vermelho e amarelo; do rio cansado que se transformou em lagoa alongada de água para os patos se aconchegarem junto das piscinas, monstruosamente abobadadas, onde os pardais se recusam agasalhar e a aninhar.

Estamos na primavera. Um casal de melros saltita por ali. A flor-de-lis desperta. A panda dorme.
Paramos e dormitamos um pouco do tempo à mesa de um pequeno café, a ver coisas simples.

-Deveríamos ter telefonado.
Às vezes, um simples telefonema pode fazer com que o rio nunca deixe de o ser, o castelo continue a ser belo e os pardais, sempre a nicarem, não se recusem a fazer ninho no assombro da cobertura e a panda deixe de dormitar naquele sofá.

 Retiramos as coisas simples do olhar e esquecemo-nos de fumar um cigarro depois do almoço, com os amigos. Acomodamo-nos, como a gata, no recanto do sofá ou no pequeno café, depois… ficamos muito preocupados, desconcertados, albardamo-nos com a manta do esquecimento, desculpamo-nos e justificamos a manta e o esquecimento. Andamos distraídos a beber água e café para não adormecermos e não entendemos a beleza da flor-de-lis, o rio cheio de artrites, o riso de quem sorri, as portas que não se abrem, os patos a descansarem e o silêncio da panda a dormir.

Descuidados, lemos muito ou pouco, vamos poucas ou muitas vezes às bibliotecas e, sem dar por isso, entramos em falência momentânea com o nome de Plauto, Truculento, Fronésio – antífrase – e de muitos outros, que a memória não é de tempos vindouros.

-Até logo - diz-se para não se ficar calado. Evitam-se os silêncios e somos simpáticos. Banalizamos o telefone e os telefonemas, os recados e as pessoas que fazem os recados, as mensagens e os donos dos dedos que carregam as mensagens. Vulgarizamos as palavras que deveriam ficar por dizer.

-Telefonemos, agora.
-Não. Ficamo-nos por aqui.

Pensando melhor, ainda que um pouco fora de horas, não nos esquecemos: parabéns! É sempre tempo de enviar uma flor-de-lis. É sempre tempo de olhar a púrpura fulgurante da flor-de-lis.