sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

POSTAL DE ANIVERSÁRIO




Está um fim de tarde de tempo cansativo. Uma chuva miudinha embrulha-nos o olhar no nevoeiro, enquanto ensaiamos pequenos passos pelo terraço da casa. Tempo escuro e quase triste que não deixa ver a serra. Que tempo!

Apetece estar à lareira.

Fiquemos então à fogueira. A panda dorme no sofá grande, sempre a dormir! A dara, lá fora, continua a molhar-se, a ladrar e a galopar desalmadamente quando vê movimentos ou barulhos estranhos no seu território.

Sentemo-nos e conversemos um pouco. Sobre o tempo, não. Está frio.

Às vezes corremos demasiado e não damos atenção aos pardais que se aninham no beiral da casa, ao bom dia que se atira distraidamente, ao pequeno almoço trincado em silêncio e a despachar, ao cinema que não se vai, ao teatro de que se gosta e não se vê. Corremos despenteados ao sabor do vento e do tempo chuviscado e passamos ao lado da fogueira que nos aquece. Não damos atenção às portas fechadas e sem manípulo. Seguimos em frente. Sempre em frente. Casa, comboio, carro, trabalho, elétricos, como nós elétricos a mastigar a sandes da tarde. Caminhamos enquanto falamos ao telefone, fazemos barulho durante todo dia, saltamos passeios e encurtamos caminhos para apagar as fogueiras que os outros acenderam e, tarde, voltamos para casa. Uf! Amanhã há mais. Mais acidentes, mais sirenes, mais doentes, mais bebedeiras, mais drogas, mais hospitais, mais gente que não vive. Sempre mais. Só as noites continuam a ser curtas.

É noite. Dentro da casa, a fogueira crepita numa dança quente de línguas de fogo. Chamas bonitas e contentes. “À lareira, cansados não da obra/mas porque a hora é hora de cansaços,/ não puxemos a voz/ acima de um segredo”(1).

É bom estar aqui. Continuemos a conversar, enquanto aquecemos as mãos, quietos e descansados. Não lançamos foguetes, mas sorrimos e gargalhamos com as pastilhas elásticas dos pães de queijo e enesgamos o nariz ao pão travestido de bolo inglês. Sob o calor desta fogueira, bebamos champanhe! Hoje é dia de canções de sonho.

É meia noite. Voltemos ao terraço da casa, talvez a chuva tenha seguido o seu caminho e já nos deixe ver a serra. Não digas nada, olha apenas as estrelas e sorri em cada passo. “Cada coisa a seu tempo tem seu tempo”(1). E hoje é o teu tempo-dia: ouve o silêncio das palmas dos sons da noite, acende as velas e ergue uma taça de champanhe à vida porque “há só noite lá fora”(1). Parabéns.

(1) - RICARDO REIS, Odes -  Cada coisa a seu tempo tem seu tempo, 30-07-1914