sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

TIMÃO DE ATENAS


Dizem-nos que fomos ricos… dizem-nos que somos pobres…

1
No dia em que escrevia estas linhas (1), a Companhia de Teatro de Almada (CTA) estreava “Timão de Atenas” (Timon of Athens – 1607-1608) atribuída a W. Shakespeare. “Timão de Atenas” foi a última encenação de Joaquim Benite, recentemente falecido. Rodrigo Francisco, assistente de Joaquim Benite, assumiu a direção artística do CTA e do Teatro Municipal de Almada (TMA). O público presente no dia da estreia - envolvido num misto de emoções, de saudade – entenderá o extremo cuidado colocado nesta encenação, o que distingue a alma dos grandes homens de teatro. Esteja onde estiver, Benite continuará a ouvir repetidamente as palmas dos seus atores e do seu público.

2
“Timão de Atenas”, homem rico, deslumbrava os seus amigos com banquetes e festas sumptuosas. À sua sombra, gravitavam ilustres atenienses, políticos, homens das artes, prostitutas, pensadores e os que se diziam seus amigos que o cultuavam com rasgados elogios e agradecimentos. Um dia, a penúria bateu-lhe à porta e os “amigos” abandonaram Timão. Em vez dos elogios, começaram a sobrar recusas e recriminações. Timão resolveu vingar-se e convidou os habituais frequentadores de sua casa para um banquete semelhante aos banquetes dos tempos de riqueza; mas, em vez da mesa farta, serviu-lhe apenas pedras acompanhadas de água.

3

- AH, muralhas de Atenas, vou olhar para vocês pela última vez. Vocês que cercam esses lobos, caiam por terra e deixem Atenas ao deus-dará. (…)

Escravos e idiotas arranquem do plenário os veneráveis membros murchos do senado e assumam o poder (…) Falidos do mundo, uni-vos – em vez de pagarem as dívidas puxem pela navalha e rasguem a garganta dos credores. (…) Que a fria ciática lese tanto os nossos senadores que os seus membros fiquem frouxos quanto os seus costumes (…) 

Timon vai para a floresta, onde a fera mais desumana é mais humana que a humanidade (…)

(William Shakespeare, Timon de Atenas, ato IV, cena 2 (excertos)).




2
Só, desiludido com a vileza do ser humano, retirou-se para a floresta. A frugalidade que esta lhe oferecia, forçou-o a escavar raízes para se alimentar. Na contínua luta pela sobrevivência encontrou ouro. Muito ouro. Mas de que lhe valia o ouro se não o podia comer?

3
- Ouro amarelo, fulgurante, ouro precioso! … Basta uma porção dele para fazer do preto, branco, do feio, belo; do errado certo, do baixo, nobre; do velho, jovem, do cobarde, valente. 
Ó deuses! por que é isso? O que é isso, ó deuses?...O ouro arrasta os sacerdotes e os servos para longe do altar, arranca o travesseiro onde repousa a cabeça dos íntegros. Esse escravo dourado ata e desata vínculos sagrados, abençoa o amaldiçoado, torna adorável a lepra repugnante, nomeia ladrões e confere-lhe títulos, genuflexões e a aprovação da bancada dos senadores (…)


2
É dezembro. Vagueio pelas ruas e não vejo o cintilar das luzes nos lares. Vive-se triste. É tempo de Natal, de sonhos e de ilusão de paz. Subjugados pelas dificuldades que o ouro dos outros nos impõe, governados por estrelas cadentes, procuramos alguma luz nas copas das árvores do Natal. Roubaram-nos o ouro da floresta e fecharam-nos dentro das muralhas de Atenas.

Dizem-nos que fomos ricos, dizem-nos que somos pobres, quando somos apenas portugueses -  atenienses - à procura de um presépio, mesmo sem vaca e sem burro. Os burros fugiram todos e andam por ai com os alforges carregados de ouro a “nomear ladrões, a conferir-lhe títulos, genuflexões e a aprovação da bancada dos senadores.”

Dizem-nos que somos próximos de “Timão de Atenas”. Durante as burlescas cerimónias inventadas para darem brilho aos atos pálidos dos senadores, dizem-nos… para termos esperança. Dizem-nos… mas já ninguém acredita nas mensagens de Natal dos senadores, repetidamente vazias…. Mas não deixa de ser NATAL!
  
(1)  –“Timão de Atenas”, atribuído a Shakespeare, foi levado à cena pela Companhia  de Teatro de Almada, em co-produção com o Teatro Nacional Dona Maria Segunda (TNDMII), no dia 20 de dezembro.