segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O MINISTRO E OS EXAMES


“Não temos um governo, temos um jardim de jotinhas engravatados, em dia de festa” – dizia-se, há dias, num programa de rádio. Neste jardim, há alguns ministros que depois de engrimpinados no poder, rapidamente conseguiram destruir todas as expetativas que arregimentaram antes de serem ministros.

O meio escolar português viu um resto de esperança no ministro da educação; porém, a sua atuação cedo demonstrou que foi um erro depositar nele qualquer expetativa de um futuro melhor para o ensino público. Chegou ao poder, sentou-se, esqueceu-se do passado e fez-se “soldado fiel”. (É preciso não esquecer que na cadeira do poder, apenas vivem sentados os “soldados fiéis”).

Soldado afeiçoado a banhar-se no poder, o ministro da educação tornou-se áspero vendedor, a retalho, do ensino público. Gentil filosofante, todos os dias nos brinda com nova descoberta de rifas apelativas da qualidade, onde se enrola o fruto do roubo da dignidade dos professores e o desmantelamento das instituições de ensino público.

Às escondidas, passa por algumas escolas enquanto vai assinando resoluções que crescem como cogumelos venenosos, destruidores das escolas que visita.

Um desses fungos superiores, já decididos, dá pelo nome de exames.

Sempre que há um qualquer problema com programas, metas, estratégias, sucesso/insucesso ou pedagogias, apregoa-se que é necessário mais exigência. Vulgar e sentenciador, numa tarde sem sono e alheia da realidade, o ministro encontrou a receita para a qualidade: prescrever mais exames.

Estou em crer que qualquer dia teremos para cada disciplina um exame trimestral ou semestral. Neste processo, os professores - eleitos bodes expiatórios e tidos como causa única do insucesso - não passam de profissionais preparadores de exames. Assim, o “fiel soldado” das fileiras do governo afunila o crivo da entrada na Universidade, “poupa” os cofres do estado e vai abençoando as escolas privadas.

Mestre na confusão da opinião pública, (re)descobriu outro exame: para se ser professor, não basta ser preparador de exames, é preciso estar apto para entrar “com qualidade” na “arte de ensinar”. Que fazer? – Exames. A decisão não tardou e o primeiro tortulho venenoso já está marcado para o dia dezoito de dezembro. Segue-se um segundo. Exames pagos, claro.

Não faz sentido: um professor que fez estágio pedagógico, por vezes com mestrado, com alguns anos de ensino, já foi considerado apto e credenciado para lecionar. Agora, determina-se que dois exames serão o certificado de aptidão e a “carta da qualidade” de professor.

Realizados os exames, conhecidos os resultados, estou a imaginar o ministro a esfregar as mãos de contente e a interpretar a pauta das classificações: tantas reprovações, tantos suficientes e tantos bons. “Com estes resultados, os encarregados de educação poderão estar descansados com a qualidade do ensino em Portugal”.

Por mim, mandava prender, já, os professores universitários, pois o próprio ministério tutelar - que lhes paga - não lhes reconhece qualidade. Se não for este o caso, demita-se o ministro e mande-se tratar este homem que vive obcecado por exames.

Bela prenda de natal… um professor feito ministro que, antes de o ser, foi apenas uma ficção.